Esse blog é uma homenagem às minhas avós, às avós do meu filho e a todas as mulheres que tem a doce experiência de serem avós. Acredito que no âmbito familiar poucas coisas são tão saudáveis quanto o estar na casa da vovó, desfutar de sua companhia, de seus quitutes e fazer descobertas diárias sobre o mistério que envolve a distãncia entre as coisas do tempo da vovó e a nossa vida cotidiana, principalmente quando somos crianças.

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Vale a pena ler de novo: segredinhos e dicas da Vovó!

Para um sono tranquilo, travesseiro de macela ...

Flor de macela seca

Flor de macela em seu ambiente natural

Macela é o nome popular de um pequeno arbusto (ou capim) que nasce no campo de cerrado, floresce e, é das suas flores que vem esse cheirinho delicioso que sinto sempre que deito a cabeça em um travesseiro aqui na na casa da vovó. Ela só faz travesseiro de retalhos ou de algodão quando não acha flor de macela. Geralmente é no tempo da seca e do frio que se faz a colheita. Nesses meses, quem chega aqui tem que ajudar a colher, separar e encher os travesseiros. Todos os anos vovó gosta de trocar a macela dos travesseiros.
Certa vez lhe perguntei o motivo de tanto zelo e ela me disse que é para evitar as alergias, que também o cheiro da macela com o tempo vai exalando e trocar as flores é bom para mantê-los sempre perfumados. Mas o que eu gosto mesmo é da sensação de tranquilidade e conforto que o cheirinho da macela me dá. durmo muito bem durante toda a noite. Nem acordo com aqueles tic de medo ...       

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Dona Maria quitandeira e seus biscoitos de rapadura

imagem e receita Aqui
Todos a conheciam por Maria do Seu Abelardo ou Maria do Sô Abelardo, depende da língua de cada um. Menos eu. Nunca tinha ouvido falar nessa senhorinha que já beirava lá os seus noventa e quase cem anos.
Seguia forte e firme na profissão de quitandeira. Quitandeira na família de meu avô materno é tradição. Parece uma doença que não tem cura, um carma, uma loucura tão grande que até quem é de fora e num elance entra pra família, acaba contaminado.
Era final de tarde no mês de setembro. Tínhamos caminhado pelas casas da parentela de mamãe. A estrada coberta de poeira, margeada por um cerrado sedento, a sede nos matando e a vontade de comer uma quitanda eu nem quero detalhar.
De repente mamãe parou diante de casa que mais parecia ter sido tirada do caderno de desenho de meus irmãos mais novos. Tinha uma janela, uma porta e um telhado em V de cabeça para baixo. Nada de fumaça, nada de cheiro bom saindo do forno... Sede e fome tínhamos aos montes. Éramos cinco derrotados naquele sertão.
- Ô de casa!
Bate palmas ... cachorro late ... de- re-pen-teeeee abre-se a janela,  uma senhorinha muito resolvida põe  o rosto e fica esperando nossa identificação:
- Sou filha de Marcílio, neta de Sá Luzia sua tia e prima de Barba, irmã de Deolinda. Afirmou mamãe.
- Vamô entrando. Océs  num vieram em boa hora. Eu vou sair agorinha para ir à missa lá grupo.
-Tem missa lá na escola hoje? Que bom! É pertinho. a gente não vai demorar não. Só queria um pouco d`água pras crianças. Respondeu mamãe muito sem graça.
Fiquei com o rosto queimando feito brasa. Que vergonha! Nunca tinha visto alguém falar assim com as visitas. Na casa da Vovó sempre esperamos as visitas irem embora para depois sairmos. Vai entender essa gente antiga... Por um tempo todos ficamos calados até que saiu lá do quarto um homem de meia idade todo serelepe e foi logo se apresentando como o filho caçula de dona Maria .Foi estendendo a conversa e contando a sua vida em alguns minutos. Como podia falar tanto assim? O mais engraçado é que ele disse que era aposentado por que tinha doença grave do coração e não podia fazer nenhum esforço, nem o simples esforço de varrer um quintal, mas na sua serelepisse estava todo perfumado para ir dançar lá no bailão...
Enquanto esperávamos a água e o homem tagarelava, fiquei observando a minuscula sala daquela casa. A parede estava toda enfeitada com quadros: uma foto de dona Maria e de seu finado marido Abelardo, um quadro do coração de Jesus, outro do coração de Maria, santo Antônio, a Santa Ceia, um retrato do Papa e um enorme terço com contas de madeira que disseram ter vindo lá de Aparecida do Norte.
Quando dona Maria entrou pela sala e nos trouxe o jarro de água fresca foi um alívio. Mas num instante o sufoco apertou novamente quando sentimos um cheiro delicioso de café fresco. Mamãe percebeu nossa inquietude e levantou-se agradecendo pela água e dizendo que já iriamos embora. Nesse momento, o tal serelepe cujo o nome eu nunca fiquei sabendo, disse:
- Vai embora não! A mãe cabô de cuá um cafezím pra nóis.
Dona Maria foi para cozinha levando o jarro vazio e voltou com um bule verde meio descascado e umas canecas bem antigas e pouco esmaltadas. O cheiro era bom. Ninguém recusou o café. Mamãe percebendo nossa fome começou a conversar com dona Maria sobre as quitandas... quem sabe ela se lembrasse de uns biscoitos guardados numas latas que desde menina eram famosos na família!?
- A senhora ainda faz aqueles biscoitos de araruta com rapadura? 
- Faço.
Começou a dar a receita para mamãe e nós com o estomago nas costas...
- Como ele fica? Perguntei.
- Eu tenho uns lá dentro. Océ qué experimentá?
- Não obrigada! Quero ( em pensamento ).
- Vou buscar!
Ela entrou para o quarto e eu estranhei. Biscoitos no quarto? Foi aí que mamãe me explicou que ela vende os biscoitos. Faz muitos de uma vez e guarda em sacos brancos dentro de latas bem grandes.
Trouxe os biscoitos num prato esmalto branco. Para nós eram os melhores que já tínhamos comido, mas a aparência ainda me é esquisita....
E foi assim que conheci dona Maria, parente distante. Resolvida como ela só. Famosa pelas quitandas. Dizem que quando ela saia com o balaio cheio e vinha caminhando em direção à praça, andava muito pouco para ver a mercadoria acabar.
Gente real, no reino do povo simples e feliz. Nessas horas é que entendo porque a felicidade está nas coisas simples.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Maneco chapeleiro


imagem de queronomeucloset
Dizem por aí que Maneco anda usando os chapéus que fabrica antes de entregar ao freguês. Como é um dono da  chapeleira e muito bom chapeleiro, muita gente fica na dúvida se ele faz um modelo e usa como amostra ou se dá uma voltinha com o chapéu e depois vende.
De tanto ouvir comentários passamos a observar seu comportamento. Zé Grilo encomendou um modelo panamá marrom escuro e contou para todo mundo que iria à festa da rapadura batida de chapéu novo.
Ontem, Maneco esteve aqui na casa da Vovó. Entrou e logo colocou seu chapéu na chapeleira. Nós que não somos bobos, tratamos de examinar o trem. Para nossa surpresa era o chapéu modelo panamá marrom escuro. Será o que Zé Grilo encomendou? Logo pensamos. O jeito foi botar a cabeça para funcionar.
Tonico Manga tinha vindo  passar o final de semana com Zefa. Ele é afilhado da afilhada dela. Um meninote muito travesso. Lá pelas bandas do Capão Redondo onde ele mora, a fama de Maneco já havia chegado e ele ficou sabendo por nós da encomenda de Zé Grilo. Idéias não faltaram...
Tonico sugeriu que jogássemos um pouco de mijo de água na aba, porque quando Zé Grilo estivesse usando seu novo chapéu, daria para saber se era o mesmo que Maneco estava usando pelo cheiro. O cheiro ia ficar forte, mas Zé Grilo é tão entusiasmado e distraído que provavelmente nem perceberia ao receber sua encomenda.
Dito e feito. Distraíram o Maneco e levaram o chapéu até o estábulo. Lá estava a égua Rinchadinha, que não demorou para fazer o serviço... No sol quente o panamá secou e logo voltou para o lugar. 
Ao ir embora, depois de muito conversar com Vovó, Maneco nem sentiu o cheiro do mijo, pois o cigarro de palha que tinha na boca cheirava mais forte.
No dia seguinte, Zé Grilo aparece todo saliente rodeando as barracas na praça. A banda tocava e o cheiro dos cavalos atrelados nos quatro cantos do lugar enganava bem o cheiro de seu chapéu. No meio da prosa eis que chega o Tonico atravessando a conversa de gente grande e exclama:
- Esse lugar aqui tem cheiro de mijo de égua!
Todos param, inspiram e concordam. Alguns soltam piadinhas. Tonico pára e olha para Zé Grilo. Aproxima-se e cheira seu chapéu.
- Chapéu novo?
- É! Encomendei e paguei caro pro seu Maneco lá na chapelaria.
- Ah, sei. Então o mijo deve ser da Rinchadinha... Seu maneco foi lá na chácara ontem com um chapéu igual a esse e ele caiu no mijo da égua...
Na simplicidade de um bom caipira, Zé Grilo disse:
- O que não tem remédio, remediado está!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Mineiros em romaria


Esse relato está baseado no que ouvi contar sobre um casal amigo de vovó. Casos verídicos - registrando memórias.
O casal Ferreira, entre os anos 70 e 80 do século passado, como tantos outros brasileiros foram vítimas da grave crise financeira que atingia os brasileiros.
A senhora Ferreira, sempre muito esperta, começou a pensar num jeito de melhorar o orçamento. Daí, resolveu colocar em prática uma idéia que haviam tido há muitos anos : organizar  caravanas em romaria para festas religiosas.
Naquela época, a maior parte dos moradores da vila eram católicos, quase ninguém possuía automóvel para viagens e grande parte gostava de dar um passeio de vez em quando. Talvez por isso tenha dado tão certo os negócios do casal Ferreira.
A senhora Ferreira era  muito bem relacionada na vizinhança. Conhecida por gostar de ajudar aos pobres e por participar de atividades religiosas na igreja. Então, era só  começar a vender as passagens para uma caravana e logo o grupo de romeiros se formava.
Conta-se, que a primeira dessas caravanas, foi organizada para a festa do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas. Ônibus com lotação completa! O problema foi a falta de experiência do senhor Ferreira que, na hora de alugar o veiculo, buscou o mais barato porque queria ganhar um grande lucro com a venda das passagens ...
Na hora marcada para o grupo embarcar rumo a Congonhas, estacionou no local combinado  um ônibus maravilhoso por fora e horrível por dentro. Desapontados, todos logo  perceberam a falta de conforto. O senhor Ferreira,  ficou muito assustado e envergonhado com a situação...
Dizem que quando o motorista girou a chave, os bancos começaram a tremer e todos tiveram que tampar o nariz de tanta poeira que saia das laterais cheias de furos. Também há quem não se canse de rir do acontecido na volta a Belo Horizonte: dizem que um menino de pele bem escura que estava sentado na última poltrona encontrou um buraco nos fundos do ônibus e para lá logo entrou.
Ficando com medo, começou a gritar pedindo que acendessem a luz. Os outros meninos logo correram para ver o que estava acontecendo e quando olharam para dentro do buraco a única coisa que viram foi o branco dos olhos do menino. E  a partir daí começaram a chamá-lo de Antônio Preto. 
Outra viagem que deu o que comentar foi uma caravana dos Ferreira para Aparecida do Norte. Essa viagem foi muito esperada por todos porque iria passar pelo Rio de Janeiro. Um dia na praia, só quem é mineiro sabe o valor que tem. Não é por acaso que somos alvo de piadas quando o assunto é banho de mar. Sempre se tem uma engraçada história a ser contada.
Naquele tempo, as viagens eram demoradas porque parava-se muito. Não tinha perigo de assalto como hoje. Então a viagem prevista para sete horas de duração, deve ter demorado umas nove.
Enfim, chegaram na paria de Copacabana. Os rapazes, que já viajaram de calção de banho por baixo das calças, desceram correndo do ônibus e foram dar um mergulho. Aí aconteceu a primeira do dia: alguns ficaram com medo de entrar na água que estava na maré alta e outros começaram a provar da água  para ver se realmente era salgada.
Um guarda, percebendo a desorientação do grupo, ordenou ao motorista que estacionasse no Leblon. Para lá seguiram e ali deu-se um festival de acontecimentos. 
O senhor Jacinto e a dona Maria, portugueses e antigos comerciantes na vila, atravessaram a avenida e foram banhar as canelas nas águas do mar. Ficaram horas com as calças suspensas até o joelho e as canelas mergulhadas na água, enquanto observavam ao longe na esperança de ver algum navio igual ao que os trouxeram de Portugal na época da segunda Guerra Mundial.
Dona Rita não se cansava de pular as ondas quebradas. A filha do senhor Geraldo acendeu o cigarro do ladrão que tentava roubar sua máquina fotográfica. O rapaz que viajou de terno, com ele passou o dia na praia debaixo do sol ardente.
Mas o fato mais engraçado foi o ocorrido com o Ari e o Baiano. Eles resolveram nadar e ficaram boa parte do dia dentro da água. De súbito uma onda gigante  os pegou despreparados dando-lhes um belo caldo. Estaria tudo normal se o Baiano não estivesse de óculos dentro do mar. Ele viu que esse havia sido levado pela onda e gritou pedindo ajuda ao Ari. Esse abriu a boca para responder ao companheiro e eis o que lhe acontece: sua dentadura saiu da boca! O saldo foi um óculos e uma dentadura perdidos no mar.
São muitos os casos que se contam sobre as viagens organizadas pelos Ferreira. É raro encontrar na vizinhança uma casa onde pelo menos uma pessoa nunca tenha viajado com eles. Se eles tivessem feito um diário, hoje em idade já avançada, poderiam publicar um livro! 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Padre Lima pediu Tia Ail para sair da igreja*

Tia Ail é mesmo uma dondoca. Na verdade, ela é mais prima do que irmã de mamãe. É uma das quatro crianças que Tia Fifina, irmã de Vovó, deixou por aqui para ir ali e, nunca mais buscou...
Quando Vovô morreu, as coisas ficaram um tanto quanto atrapalhadas. Vovó ainda muito jovem, tinha nove filhos legítimos e esses quatro abandonados à sorte, que ela lógico, não iria desamparar. O lado financeiro da família era preocupante, mas tentava dar-se um jeito.  
Certo dia, dona Pia, uma rica senhora que morava na Capital e passava férias na fazenda ao lado, viu Tia Ail. Era uma menina muito bonitinha e da idade de sua filha caçula. Dona Pia propôs à Vovó levar tia Ail para morar com ela e garantiu que a colocaria numa boa escola. O intuito era que sua filha caçula, bem mais nova do que as outras, tivesse uma companhia. Vovó permitiu.
E assim, tia Ail que na época tinha apenas oito anos, passou a ser criada numa casa e em uma cidade de hábitos bem diferentes e modernos. Estavam nos anos sessenta e a ruptura de certos padrões tradicionais aos poucos iam acontecendo. Tia Ail aprendeu a usar mini saia, roupa decotada, maquiagem e quando adolescente ficou muito rebelde e passou também a fumar. 
Depois de concluir seus estudos e não querendo prestar serviços como vendedora na loja da família de dona Pia, resolveu voltar para casa de Vovó, pois a menina para qual ela foi servir de companhia estava prestes a se casar.
Voltou, mas seus hábitos já não eram os mesmos. Começou aí uma sequência de problemas na convivência que passou a ter na nossa comunidade, pois tradição por aqui ainda tinha lugar garantido, e mulheres muito avançadas eram vistas como mulheres "à toa", como dizem ainda Vovó e suas amigas.
O maior escândalo que Tia Ail provocava era com o tamanho da saia que usava. E ainda por cima, pregueada, o que ao vento deixava tudo de fora.
Segundo Vovó, certo dia tia Ail foi à missa da noite. Estava frio, mas a danada da saia ela não largou em casa. 
Entrou e sentou-se bem na frente. Tudo ia bem até que o Padre Lima avistou Tia Ail e arregalou os olhos, dizendo:
- Nós temos no guarda-roupas vestimentas para irmos ao trabalho, para irmos à escola, para irmos às festas e temos que ter também algo adequado para virmos à igreja. A moça que está de mini saia, queira respeitar a casa de Deus, que é lugar de resignação e oração. Por favor, saia!
Dizem que tia Ail saiu sem falar nada. E o pior, ficou ainda mais falada do que nunca.
Mas ela não se emenda...
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A história postada aqui é baseada em fatos reais vivenciados por meus familiares . Desse caso eu me lembrei ao ouvir nos noticiários de ontem o caso da uma menina  convidada a sair da igreja pelo tipo de roupa que usava, o que era muito comum até os anos 70.

domingo, 30 de setembro de 2012

Dona Conceição Coitchada

Hoje me lembrei de dona "Conceição Coitchada", vizinha de Vovó por muitos anos. Morava no terreno ao lado e como as casas foram construídas bem perto da cerca, nós e os dela nos víamos diariamente.
Era uma senhora bem idosa. Usava uns vestidos de tecido de algodão com estampas bem discretas, todos com mangas três quartos, saia franzida e comprida até a altura dos tornozelos. Por cima do vestido trazia sempre um avental de brim em tom escuro. Na cabeça  um lenço com estampas azuis e brancas amarrado atrás das orelhas. 
Não tinha vaidade. Nunca a vi de brincos ou qualquer outro acessório, muito menos com aparência de ter usado cosméticos. Era muito simples e tímida. Tinha a fala mansa, um pouco rouca e a tudo que ouvia as pessoas falarem respondia: coitchada!
Morava numa casa caiada e com janelas de madeira em peça única, que se fechavam por uma tremela..
Um telhado de quatro águas bem velho cobria a morada. Algumas telhas já haviam ficado pretas de fumaça. A madeira só resistia ao peso das telhas porque era daquelas escolhidas a dedo no mato. O piso de vermelhão parecia nunca ter tido contato com cera. Os móveis além de poucos, estavam em estado de dar dó.
Viúva, morava com a filha Maria, noiva do irmão de nossa tia torta, Neném, casada com tio teresão, que além de trabalhar fora acabava assumindo grande parte do serviço doméstico, tarefa da qual a esposa não era fã. Maria era noiva desse homem, cujo o nome me falha a memória, há uns 20 anos... Diziam que ele não se casava porque era cigano.
Além de Maria, dona conceição tinha também um filho solteiro em casa, mas esse trabalhava durante o dia e no final da jornada ia direto para o butiquim, principalmente para a venda do João Bica. De lá subia o caminho de casa tropeçando nas pernas.
Uma coisa boa era o quintal de dona Conceição. Quantas frutas! E algumas bem ao lado da cerca e com galhos para o lado do terreno de Vovó. Não que faltessem frutas no nosso quintal, é que as do quintal da vizinha parecia-nos melhores. Ah! Não posso esquecer da rama de chuchu que subia na cerca e produzia até na época de seca.
Bom, hoje me lembrei de dona Conceição que já passou dessa para melhor. Faz um bom tempo. Seu golpe maior foi a morte do filho Quinzinho, que de tanto beber acabou morrendo de forma trágica.
Certo dia,  foi beber num butiquim do lado de lá da rodovia. Ao voltar para casa  foi surpreendido por um carro que o mandou para cima como se fosse uma pipa ao vento. 
A partir daí ela  ficou a cada dia mais triste, adoeceu e se foi. Coitchada!
Já sei, todos querem saber como ficou Maria!? Digo que nem assim, ficando sozinha, com o cigano ela conseguiu se casar. Está bem viva, morando na mesma casa que continua resistindo ao tempo diante do mesmo quintal. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Lá vai Maria, feliz da vida!

Todos de casa hoje fomos à missa na igreja de Nazaré por intenção da alma de vovô que se estivesse vivo faria hoje 106 anos. Assim que o padre disse "vão em paz que o senhor os acompanhe", sai para comprar as velas que deixamos acesas no velório.
Fui entrando na lojinha da sacristia e logo percebi que ela estava ali, como também está em todas as partes por onde se anda nessa vila e até nas redondezas. Eram apenas sete horas e ela já tinha percorrido meio mundo, assistido missa, tomado a comunhão e agora escolhia um terço para comprar. É assim todos os dias, e a moça que atende no balcão ainda diz que acha o seu jeito uma gracinha... Pensando bem Maria é mesmo muito boazinha.
Não sei se ela tem família, só a vejo de chinelos bem velhos e limpinhos, com um vestido azul claro e uma blusa de linha branca sempre aberta por cima do vestido, faça chuva ou sol, calor ou frio. Talvez pela idade anda um tanto quanto corcunda, escorada numa bengala e carrega uma sacola dependurada no braço esquerdo. Tem os cabelos bem curtinhos e já bem grisalhos. No pescoço trás um terço de lágrima de Nossa Senhora e umas correntes com medalhas de vários santos dos quais é devota. Anda sempre ligeiro e não é para menos com aquele peso de pena.Toma fé de tudo ao seu redor. Quando vê um comércio de banca, ambulante ou lojinha sempre pára e dá uma olhada, mas nunca leva nenhuma mercadoria.
E assim vai saindo... Lá vai Maria, feliz da vida!